terça-feira, 24 de maio de 2011

O Seminarista: Trecho do livro

"[...]Era uma bela tarde de janeiro. Dois meninos brincavam à sombra das paineiras: um rapazinho de doze a treze anos e uma menina, que parecia ser pouco mais nova do que ele.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda.

A menina, sentada sobre a relva, despencava um molho de flores silvestres de que estava fabricando um ramalhete, enquanto seu companheiro, atracando-se como um macaco aos galhos das paineiras, balouçava-se no ar, fazia mil passes e piruetas para diverti-la."

O Seminarista: Características literárias

A obra “O seminarista” possui características do romantismo bem visíveis. Essas características são : o amor à natureza, os sonhos, o grande sentimentalismo e a subjetividade.
O amor à natureza está presente na seguinte passagem:
“De repente margarida, dando uma volta pelo jardim, apanhou duas flores e correu a apresentá-las a Eugênio.
-Aqui estão duas flores, disse ela, um cravo e uma rosa. O cravo é você e a rosa sou eu. Fique com a rosa, que eu guardarei o meu cravo. Aquele que deitar fora a sua flor, è porque não sabe querer bem.”
Outro trecho que também exemplifica o amor a natureza é:
“Eugênio reparou para o tronco das duas paineiras e viu neles entalhados em um a letra E, e no outro a letra M.
-Eugênio e margarida! Exclamou ele. Aposto que é isto que querem dizer estas letras.
- É isso mesmo adivinhou. Fui eu quem fiz estas letras aí com a ponta de um canivete. Esta árvore sou eu, e essa lá é você . Nós também havemos de viver juntos como estas duas árvores, entrançando no ar os ramos uns nos outros, não é assim, Eugênio?[...]”
A subjetividade está expressa nos seguintes trechos:
“Eugênio por sua parte achava-se muito mal satisfeito de si mesmo e envergonhado do papel covarde que fizera perante sua amada. Estava, pois, resolvido a responder-se Luciano outra vez tivesse a audácia de provocar.[...]”
“- Margarida infiel! ... Margarida casada! ... exclamava Eugênio ao entrar em seu quarto,delirante, e apertando a cabeça entre as mãos convulsas. Quem o diria! ...pôde tão facilmente esquecer-se de mim para entregar-se a outro! ...[...]”
Estão explicitados os sonhos a seguir:
“Poucos dias depois sonhou que Margarida, morta, vinha anunciar-lhe que era só ordenando-se que se encontraria com ela na bem- aventurança. Seu destino estava decretado no céu, e sua vocação irrevogavelmente firmada sobre a terra.”
O sentimentalismo é uma forte característica do romantismo, e também se faz presente na obra, o que fica claro nos seguintes trechos:
“No outro dia o padre Eugênio levantou-se com o espírito cheio de terrores e de vagas opressões,. Em companhia de seus pais, pôs-se a caminho para a vila, triste e inquieto.
Avistando em distância a casinha de Umbdina, já tambando em ruínas e abafada entre o matagal, sentiu uma nuvem de tirsteza afogar-lhe o coração[...]”
“O padre Eugênio entorou em casa com o cérebro a arder, e com o coração açoitado das mais violentas agitações. De coração mole e extremamente impressionável, não tinha força para lutar contra a tempestade medonha que dentro dele se suscitava.”Tudo isso tem como objetivo exemplificar a grande queantidade de características românticas presente no livro “o seminarista” de Bernardo Guimarães.

O Seminarista: Curiosidades

  • "O Seminarista", - "pequenos estudo de gênero", "narrativa romantizada de um fato real", - foi o trabalho, em prosa, de Bernardo Guimarães, que mais loas mereceu da habitual severidade do Silvio Romero, assim expressas: - "O livro deixa-se ler docemente; não é atordoardor e cheio convulsões; a ação corre serena e vai direta ao seu fim. Tem muita verdade psicológica e muita exatidão de tintas nas cenas locais. Não tem aquele aspecto doutrinário, escavador, científico, técnico, que vai invadindo o romance moderno, às vezes levado a tal exagero, que antes ler um tratado de patologia, especialmente de moléstias do sistema nervoso e das faculdades mentais, do que ler tais livros, que, afinal de contas, nem ciência nem arte são. O nosso livro não tem aquele aspecto demonstrativo de equação algébrica, nem o tom realista de um processo-crime. O romance é vazado nos velhos moldes; mas tem verdade, dessa verdade que se impunha a um homem que tinha os olhos abertos, como Bernardo Guimarães, e saber observar, ainda que o não ostentasse".
  • Nas comparações que exornam "O seminarista", é sempre à natureza brasileira que recorre, para melhor vestir as idéias. Assim, Margarida era "de corpo esbelto e flexível, como o pendão da embaúba" (outra imagem vegetal de rara felicidade!); seus olhos, cujos fulgores se velam à sombra de negras pestanas, eram "como tímidas rolas, que se encolhem, escondendo a cabeça debaixo das asas assetinadas"); e a mútua afeição das crianças era "como um cipó" que, nascendo entre dois tenros arbustos vizinhos, se enleia em torno deles e confunde os seus galhos, tornando-os como um só".
  • Os brasileirismos ou mineirismos aí aparecem em barda, quer nas expressões "assim como assim", "pensar as vaquinhas", "lavrar de relho", quer nos vocábulos "bitácula" (pequena casa comercial), "favorão", "gangorra", "quituteira", "tropeiro", afora algumas ousadias de sufixação e prefixação, como "chamarisco" (em vez de "chamariz") ou do moderno "chamo", já consignado por Gonçalvez Vianna em suas "Apostillas aos diccionarios portuguezes", t. I, página 280), "beberreira". "estouvadice", "monticuloso", "beatividade" e "desobumbrar", que não foram aforadas até agora pelos nossos melhores lexicógrafos e raramente se deparam ao leitor em outras obras do romancista mineiro.


O Seminarista: Biografia do autor


Bernardo Joaquim da Silva Guimarães era filho de Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira. Dos quatro aos 16 anos viveu em Uberaba e Campo Belo, onde aprendeu as primeiras letras. Antes dos 17 estava de volta a Ouro Preto, fazendo o preparatório para o curso de direito.

Matriculou-se, em 1847, na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se tornou amigo íntimo e inseparável de Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa, com os quais chegou a projetar a publicação de uma obra que se chamaria "Três Liras". Com outros estudantes, os três fundaram também a "Sociedade Epicuréia", que pretendia reproduzir a boêmia byroniana no ambiente provinciano de São Paulo da época.

Bernardo Guimarães bacharelou-se no começo de 1852, mesmo anos em que publicou o livro de poemas "Cantos da Solidão". Exerceu o cargo de juiz municipal e de órfãos de Catalão, em Goiás, por duas vezes, em 1852-54 e 1861-64. Nesse ínterim, fez jornalismo e crítica literária no Rio de Janeiro.

De sua passagem por Catalão, é celebre o episódio em que promoveu um júri sumário para libertar os presos locais, pessimamente instalados e autores de crimes miúdos. Assim, entrou em conflito com o presidente da província e foi processado, embora tenha ganhado a causa.

Em 1864, de novo o poeta viveu na Corte, onde publicou o volume "Poesias", contendo "Cantos da solidão", "Inspirações da tarde", "Poesias diversas", "Evocações" e "A baía de Botafogo". Fixou-se, a partir de 1866, em Ouro Preto, onde foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro. Casou-se no ano seguinte com Teresa Maria Gomes, que lhe deu oito filhos. Uma das duas filhas foi Constança, falecida aos 17 anos, quando noiva de seu primo, o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, que a imortalizou na literatura.

Extinta a cátedra no Liceu, Bernardo Guimarães viu-se, já casado, sem colocação. Entre 1869 e 72 escreveu várias obras. Em 73, foi nomeado professor de latim e francês em Queluz, atual Lafayette (MG). Também esta cadeira foi extinta. Basílio de Magalhães sugere que o motivo deve ter sido, em ambos os casos, ineficácia e pouca assiduidade do professor.

Em 1875, publicou o romance que melhor o situaria na campanha abolicionista e viria a ser a mais popular das suas obras: "A escrava Isaura". Vale ressaltar que - com todos os supostos problemas que a crítica literária atual aponta a esse romance - a vitalidade de sua narrativa o torna um perene sucesso, já duas vezes adaptado para as novelas de televisão. Uma delas, exibida em vários países do mundo, fez tamanho sucesso na China que tornou a atriz Lucélia Santos (que fez o papel de Isaura) uma celebridade naquele país.

Dedicando-se inteiramente à literatura, Guimarães escreveu ainda quatro romances e mais duas coletâneas de versos. A visita de dom Pedro 2
o a Minas Gerais, em 1881, deu motivo a que o imperador prestasse expressiva homenagem a Bernardo Guimarães, a quem admirava.
Embora tenha começado a escrever ficção nos fins do decênio de 50, e tenha feito poesias até os últimos anos, a sua melhor produção poética vai até o decênio de 60; a partir daí, realizou-se de preferência na ficção.

Neste gênero, distinguem-se: "O Ermitão de Muquém" (escrito em 1858 e publicado em 69); "Lendas e Romances" (1871); "O Seminarista" e "Histórias e Tradições de Minas Gerais" (1872). Publicou mais duas coletâneas de versos: "Novas poesias" (1876) e "Folhas de outono" (1883). Postumamente apareceram "O Bandido do Rio das Mortes" (1905) e o drama "A voz do Pajé".
 

O Seminarista: Textos a respeito

BERNARDO GUIMARÃES E O ROMANCE DE TESE
Quando um físico, matemático, filósofo, pensador, etc. desenvolvem um trabalho sobre um tema qualquer, não seria sem razão dizer que foi desenvolvida uma tese.
Quando um escritor compõe uma narrativa com o propósito de mostrar e defender suas reflexões morais, éticas, filosóficas ou religiosas, ele está compondo um romance de tese.
Em “O Seminarista” podemos facilmente perceber que a ação das personagens, os acontecimentos e o desfecho da narrativa, converge para um problema religioso: o celibato clerical. Bernardo Guimarães usa a narrativa para fazer uma análise crítica da imposição do celibato religioso, que deforma o homem. Através da trama da narrativa, do conflito das personagens, ele nos expõe as causas e as conseqüências dessa imposição religiosa. Também está colocado o autoritarismo familiar, a ponto de o capitão Antunes não permitir que o filho siga o seu próprio caminho na vida.
O romance de tese tem uma função moralizadora, denunciando os aspectos negativos da sociedade, induzindo os leitores a fazerem algo para melhorá-la.
Ricardo Sérgio

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Em O seminarista, Bernardo Guimarães faz um típico romance de tese, querendo provar o equívoco do celibato religioso, que deforma o homem indo contra suas tendências naturais, e do autoritarismo familiar, que não permite ao jovem escolher seu próprio caminho.
A crítica forte do romance é, portanto, contra o celibato religioso, contra a proibição de casamento para os padres, vista como uma violência contra a natureza humana: “Ah, celibato!... Terrível celibato!... Ninguém espera afrontar impunemente as leis da natureza! Tarde ou cedo, elas têm seu complemento indeclinável, e vingam-se cruelmente dos que pretendem subtrair-se ao seu império fatal!...”.
Ressaltando a importância do meio social e dos instintos na determinação do comportamento humano, Bernardo Guimarães dá a esse romance tons naturalistas que, mais tarde, serão retomados radicalmente por outros escritores, principalmente Aluísio Azevedo e Inglês de Souza.
Douglas Tufano

Uma viagem em "O Seminarista"

Resumo:

O Seminarista narra o drama de Eugênio e Margarida que, na infância passada no sertão mineiro, estabelecem uma amizade que logo vira paixão. O pai de Eugênio, indiferente aos sentimentos do filho, obriga-o a ir para um seminário. Dilacerado entre o amor e a religiosidade, Eugênio segue para o mosteiro. Além disso, o livro também mostra a ação patriarcal, ou seja, o sr Antunes manda e a sra Antunes não pode interferir. Tanto é que nem nome ela recebe, é chamada pelo sobrenome do marido.
Embora todo o sofrimento da perda amorosa, o jovem dedica-se à vida espiritual e acaba ordenando-se sacerdote. Volta então à aldeia natal para rezar a sua primeira missa. Lá encontra a sua antiga paixão, Margarida, que está à beira da morte. Os dois não resistem ao impulso afetivo e mantêm relações. Em seguida, a heroína morre. Eugênio,ao iniciar a missa de um defunto, descobre que aquele era Margarida e assim enlouquece de dor afetiva e moral. Joga sua roupa de padre no chão e sai correndo pela porta principal da igreja. Desesperado.Sem controle.Estava louco.
Apesar de sua dimensão melodramática, o romance apresenta uma das mais veementes críticas ao patriarcalismo em toda a literatura do século XIX.